Imagem Latente é o nome que se dá à imagem registada no negativo antes de ser revelada. O Poema Latente é essa imagem ainda no cérebro, ainda em busca da sua expressão sensível; é a expressão dessa busca. Uma pescadinha de rabo na boca, portanto: expressar a busca da expressão.
domingo, 30 de outubro de 2011
A bolha Invisível IV
Ama-te a ti mesmo como ao teu semelhante. Parece egoísmo, ou sede de poder. Parece vir ao contrário do que se pretende. É fácil dizer Mas é isso que acontece! É por isso que isto está ao contrário! Mas a verdade é que o poder é sempre visto como sendo sobre outros, pode ser o inverso de uma certa simpatia, a tal que é compulsiva, mas é sempre uma relação a partir do outro.
A nossa relação connosco está sempre inserida na nossa relação com o outro. No fundo, essa é a questão. Não há egoísmo, sequer, sem que haja um outro a quem fazer referência. Quando colocamos a questão do egoísmo no olhar para dentro antes de olhar para fora, estamos a olhar de fora, ainda. É uma falsa questão, como diz Bergson. Decorre da forma como a colocamos, de a colocarmos erradamente, como a questão do nada, no seu exemplo, do que só existe depois do exercício de nos abstrairmos do que lá estava e que, nesse sentido, é tudo e mais qualquer coisa, na sua negação. Aqui, é o mesmo vício. Estamos tão habituados a uma dada forma de pensar que nem notamos que há outras. A alegoria da caverna, de Platão.
E o pior disto tudo é que parece quase o mesmo. Quer dizer, qual é a diferença, afinal, entre amar o próximo como a si mesmo ou amar a si mesmo como ao seu próximo? A ênfase é dada a instâncias diferentes. Numa, há um sentido do poder, noutra, da partilha. Só sabendo o que se é se pode dar, no fundo. E cada um de nós não é igual a nenhum outro, logo, não pode chegar a si pelo outro sem ter partido de si primeiro. Posto de outra forma, Não posso chegar ao eu que está no outro, apenas ao outro que está em mim. Então, a construção pelo outro obriga-me a procurar poder sobre ele, porque ele tem poder sobre mim. Ao invés, a partilha do outro que tenho em mim é uma dádiva, cede e encontra e constrói.
Volto a Feldenkrais, e aos métodos de reeducação somática, que nos mostram como acumulamos todos esses pensamentos no corpo físico. F.M. Alexander dizia que não há pensamento que não tenha o seu reflexo físico, muscular. O nível de tensão que conseguimos suportar, por um lado, e dispersar, por outro, dita muita da nossa capacidade de resposta e de chegada ao outro e a uma compreensão mais simples de nós mesmos. Mas essa capacidade não depende do outro, apenas nós podemos controlá-la. Estas técnicas, no fundo, mostram-nos isso mesmo: a forma como a nossa forma nos controla, e formas de a reformular. Aqui, torna-se mais clara a diferença de leitura quando se invertem os termos na relação, e é-nos sugerido um sentido de construção social mais a partir do indivíduo. Não por egoísmo, mas porque só conseguimos estar verdadeiramente no outro quando não estamos presos em nós, na bolha invisível que é o nosso pensamento moldado pela nossa acção ditada pelo nosso pensamento. Sim, é uma pescadinha de rabo na boca, e o pior disto é que, olhando para o outro, encontramos um espelho disso mesmo, justificando as voltas ad nauseam.
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